Cartas à Leela

21 de jan. de 2019



Nesse projeto "Cartas à Leela", pretendo publicar minhas reflexões e conversas com minha filha. E essa é minha primeira carta:

Minha filhinha querida.
Ontem mais uma vez lemos algumas histórias do livro
"Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes"
Eu quis criar uma expectativa para o momento no qual o livro chegaria do correio. Falei que havia encomendado um livro muito especial e minha intenção era criar um clima de empolgação para esse momento. E funcionou <3 (Depois farei um post sobre esse livro).

Então ao ler pra você ontem chegamos na história da Coy, uma garotinha transgênera. Ela nasceu como menino, mas em sua infância percebeu que era uma menina e pediu aos pais que a tratassem como menina e os pais atenderam seu pedido.

Eu ainda não havia conversado com você sobre transgêneros...na verdade nunca nem conversamos sobre homossexualidade. No máximo já falamos que existe casamento em 2 mulheres e 2 homens. E é tão lindo como você, em sua pureza, não se choca com nada, não julga. Que bom que estou tendo essa oportunidade de lhe mostrar que existem diferentes formas de ser e estar no mundo. Que não somente uma forma, um só modelo "válido e digno". Que sempre poderemos ser quem desejarmos e que poderemos amar e estar com as pessoas que desejarmos.

Então quando chegamos na parte que Coy, aquela menina que você viu no desenho, era inicialmente um menino, você levantou da cama inquisitiva: como mamãe ela era um menino?

E então eu li toda a história e expliquei que isso pode acontecer, que as pessoas podem nascer meninos ou meninas, mas perceber depois que não gostam de ser assim, que não se vêem no gênero que disseram que ele/ela era. Isso acontece e então teremos que respeitar o que a criança acredita ser. E disse que os pais de Coy foram muito respeitosos e corajosos por respeitar a forma como ela queria ser. Isso permitiu que Coy fosse mais feliz.

Eu senti um gelo quando percebi do que se tratava a história. Estudei muito sobre sexualidade, gênero, identidade e orientação sexual desde a faculdade, e pra mim estas questões estavam tranquilas até pouco tempo, eu estava certa de que ofereceria para minha filha uma educação que abordasse todas essas questões com o máximo de cuidado e respeito. Porém atualmente estamos atravessando um momento muito tenso e incerto na política e até mesmo na cultura de nosso país. Não sei se as escolas, pais e professores estarão abertos para ensinar essas questões às crianças e já estamos vendo vários sinais de que não estarão, devido ao veto e resistência à vários projetos para tratar questões homossexualidade e gênero nas escolas. Então tenho medo de que você chegue contando a história de Coy para as amiguinhas, não sei como isso será recebido, e não gostaria jamais que você fosse repreendida, mas não posso controlar as reações de outras pessoas.

Então decidi ter uma outra conversa com você...uma conversa sobre intolerância.
Filha, haverá algumas coisas que a mamãe irá te ensinar, que talvez outras pessoas verão com maus olhos, vão ficar bravas com você. Mas nessa hora, lembre-se da mamãe, e pense, eu sou boa, eu não quero o mal de ninguém….

Não se deixe abalar pelo ódio ou pela raiva que possa existir no coração das pessoas. Na verdade nem sei se elas desejam ser assim, podem ser pessoas muito machucadas também...
Tente não discutir, não brigar, não revidar...
Diga o que pensa com todo respeito e educação, e se a pessoa não concordar você, você pode dizer: eu entendo seu ponto de vista.

Deixe seu coração em paz. Nunca desista daquilo que acredita.

Te amo filha <3
Mamãe


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