Minha Experiência com o Parto Humanizado

30 de nov de 2018



Eu sou psicóloga, mãe de 2 filhos (Leela e Nicholas, de 6 e 4 anos), sou formada pela UNESP desde 2002. Morei na Irlanda por 7 anos onde me casei e fiz meu mestrado em Estudos sobre a Igualdade pela University College Dublin. Sempre trabalhei na área de projetos sociais, e há 4 anos me envolvi na área de parto e humanização da assistência obstétrica no Brasil. Há 3 anos me formei como Doula e Educadora Perinatal e tenho acompanhado gestantes durante o pré-natal, parto e pós-parto. Além disso, também estou envolvida em vários grupos e campanhas pela maternidade ativa e pela humanização do parto na cidade de Franca.


Em 2012 tive minha primeira filha Leela, através de um parto ‘anormal’ em um hospital público da Irlanda. Sempre tive o desejo de ter um parto normal, mas em minha primeira gravidez estava muito desinformada e despreparada, apesar de ter pesquisado muitas coisas na internet. Fui para o hospital muito cedo, ainda em fase latente, e por isso acabei passando por muitas intervenções desnecessárias: o soro IV (ocitocina sintética), bolsa rompida, anestesia peridural, episiotomia, quase 2 horas de puxo conduzido e extração do bebê à vácuo. Após o parto, fiquei muito dolorida não só fisicamente, mas psicologicamente. Eu sentia que havia sofrido um acidente, foi realmente um trauma, fiquei muito abalada e deprimida nas primeiras semanas. Minha segunda gravidez veio de surpresa, mas assim que fiquei sabendo eu estava muito certa de uma coisa: eu não teria novamente um parto sofrido e violento como o primeiro.

Fui buscar informações e foi então que me indicaram o livro “Hyponobirthing”, o livro é incrível e mudou completamente minha visão sobre o nascimento. Pouco tempo depois também assisti ao filme “O Renascimento do Parto” que retrata a situação brasileira de atendimento ao nascimento, e ressalta a importância de oferecer um atendimento mais humanizado e baseado em evidências científicas.

A partir de então eu comecei a participar de vários grupos relacionados ao parto natural e à humanização do parto. Também conversei com outras mães que haviam tido um parto humanizado, com parteiras, doulas e com um médico humanizado, e assim tive acesso à informações muito importantes e de qualidade que me permitiram me sentir segura e confiante para passar pela experiência do parto.

Com o Hypnobirthing, aprendi técnicas de respiração, relaxamento e visualização para ter um parto tranquilo e possivelmente sem dor. Aprendi a confiar na natureza, nos meus instintos e no meu corpo que sabe exatamente o que fazer no trabalho de parto. Aprendi que o mais importante para ter um parto tranquilo é estar relaxada e trabalhar junto com o meu corpo nesse processo. Enfim, me senti preparada e completamente ‘empoderada’ para parir meu bebê.

No meu segundo parto eu tive que ir para São Carlos onde encontrei um hospital humanizado e um médico que concordou em me acompanhar a partir das 38 semanas. Mas foi um parto foi rápido e tranquilo. Não me lembro de dor, me lembro de um pouco de pressão no momento expulsivo. Desta vez não fiquei com nenhum trauma, nem dolorida, nem triste e não tive o famoso ‘baby blues’. Pelo contrário, me senti vitoriosa, feliz e realizada por ter conseguido trazer meu bebê ao mundo no tempo dele e de forma completamente natural. O Nicholas nasceu tão sereno, ele não chorou e lembro-me de vê-lo levantando o pescocinho no meu peito, me olhando... me lembrei nesse momento do que eu havia lido no livro, de que após um parto natural, o bebês nascem muito calmos e alertas.
 
Após passar por essas 2 experiências de parto e depois de muita pesquisa e aprendizagem sobre o Hipnoparto e a Humanização do Parto em geral, acabei me envolvendo com o mundo da humanização e me tornando ativista na área. Como psicóloga, decidi então trabalhar com preparação de gestantes para o parto natural.

O trabalho que realizo com gestantes inclui 8 sessões de Preparação Perinatal, além do acompanhamento da Doula durante o parto e 2 visitas pós-parto. Nas sessões de Preparação Perinatal eu oriento sobre o que é o Parto Humanizado, o trabalho da Doula, e sobre a importância do Plano de Parto. Explico também sobre os métodos internacionais do Parto Gentil, Parto Ativo e Hipnoparto. Faço uma comparação entre o parto normal e o parto humanizado, esclarecendo as possíveis intervenções no parto e os mitos do parto normal (como cordão enrolado, falta de dilatação, bebê grande, etc). Explico sobre a fisiologia do parto, ou seja, o que acontece no nosso útero no trabalho de parto e os hormônios que estão em ação. Falamos sobre o medo da dor, e como esse medo influencia no trabalho de parto, e também oriento sobre as fases do trabalho de parto e métodos de alívio da dor. Nessa preparação também temos uma sessão com o pai (ou acompanhante) para esclarecer as dúvidas do mesmo, e orientar sobre posições de parto, massagens e técnicas para tranquilizar a parturiente.
Durante as sessões eu ensino as técnicas de respiração, relaxamento e visualização do Hipnoparto, com o objetivo de aliviar as dores do parto. Essas técnicas, principalmente a respiração, ajudam a parturiente à ‘desfocar da dor’, e dessa forma ela também se mantém relaxada, o que lhe auxiliará na descida do bebê e em um parto mais rápido e tranquilo.

No decorrer de todo esse processo me reuni com mais algumas mães de Franca que passaram por experiências parecidas e montamos o grupo PREMAF (Parto com Respeito e Maternidade Ativa Franca), este grupo está no Facebook e conta atualmente com mais de 480 membros (mães, gestantes e profissionais). O objetivo do PREMAF inicialmente era promover ações de conscientização da sociedade sobre os benefícios do parto natural e lutar para que os hospitais daqui ofereçam uma estrutura de parto humanizado, porém após vários encontros e eventos nosso grupo se fortaleceu e hoje temos vários projetos diferenciados envolvendo atividades com as mães e as crianças, incluindo a proposta de iniciar um co-working de mães em nossa cidade. Em Março de 2017 conseguimos a aprovação da Lei da Doula, votada por unanimidade pelos vereadores, e essa lei obriga todos os hospitais da cidade à autorizarem a entrada da Doula para acompanhar a gestante, juntamente com o acompanhante (a entrada do acompanhante já é garantida por lei desde 2005). Essa foi uma grande vitória para o nosso grupo, que já fazia campanhas há 3 anos.

Por 2 anos ministrei o curso sobre Humanização do Parto na Unifran e fiquei muito feliz com o feedback dos alunos. Devido a esse constante contato com alunos, gestantes e pesquisas feitas na área, sinto que meu trabalho vem crescendo e se aperfeiçoando cada dia mais. Em 2015 criei a página Mamãe Natural no Facebook: onde falo sobre parto humanizado, maternidade e infância. Em 2016 iniciei as Rodas: Roda Gestar, de preparação para o parto (para gestantes e acompanhantes) e a Roda Mamãe-Bebê, de suporte à amamentação e pós-parto.

Fazia 12 anos que eu trabalhava em projetos sociais, e em 2014 senti que era o momento de mudar meu rumo profissional pois me encontrei tão envolvida com a questão da humanização do parto.  Quando passamos pela experiência prática, nossa visão e atitude sobre determinado assunto muda completamente. Porque temos o que chamam em inglês de ‘insider’s view’ -  uma visão de dentro, o ‘viver na pele’ mesmo, que nesse caso significa: parir uma criança, e acima de tudo, se preparar para aquele momento, pois como Frederick Leboyer (um precursor da humanização do parto) diz,
“O nascimento pode ser questão de um momento, mas é um momento único”.

Adelita Monteiro
Psicóloga, Doula e Educadora Perinatal




Nenhum comentário:

Postar um comentário