Igualdade de gênero e a questão do Cuidado

30 de nov. de 2018





Pense em quais momentos da vida um ser humano precisa de cuidados?

Quando bebê, criança, adolescente, até sair de casa? Quando está doente ou passa por algum procedimento médico? Se acaso ele nasce com alguma deficiência ou tem um acidente ao longo da vida que vem a debilitar suas capacidades? Quando se torna idoso e precisa de vários tipos de auxílio?

É possível perceber que em diversos momentos e por anos de nossa vida nós precisamos ser cuidados? E quem realiza, na maioria das vezes, todo esse trabalho de cuidado?

As mulheres.




Eu só consegui compreender realmente a questão da desigualdade de gênero quando compreendi a questão do cuidado. As mulheres são as maiores responsáveis pelo cuidado: seja esse o cuidado com outras pessoas ou o cuidado com o local onde habita: ambos cuidados são mais conhecidos como trabalho doméstico. O trabalho doméstico inclui tanto o limpar a casa, fazer compras, lavar, cozinhar, passar, etc., quanto o cuidar das crianças, dos idosos, daqueles que estão enfermos ou que têm alguma deficiência.

De acordo com pesquisas e estatísticas internacionais, as mulheres e meninas são as maiores responsáveis pelo trabalho doméstico não remunerado, isto é, esse trabalho de cuidado que todas nós fazemos por amor ou não, mas que sentimos de alguma forma ser nossa obrigação. Elas também são maioria no trabalho doméstico remunerado - embora mal remunerado. Em todas as profissões domésticas e de cuidado é raridade encontrar homens (pense em: professoras, educadoras, enfermeiras, cuidadoras de idosos, trabalhadoras domésticas, diaristas, faxineiras, babás, dentre outros). Essas profissões estão entre as mais mal remuneradas em comparação com outras profissões que não envolvem trabalho doméstico e de cuidado.

Representatividade das Mulheres na mão de obra global 

Dessa forma fica mais fácil compreender porque não vemos muitas mulheres na política, na gerência de grandes empresas e negócios, nos esportes, na frente do jornalismo, como diretoras de cinema, nos papéis de liderança, na vida pública em geral. Isso se explica pelo fato de que a grande maioria das mulheres não consegue se envolver nessas áreas porque ocupa seu tempo cuidando, seja da casa ou dos filhos ou dos idosos, enfermos e deficientes. Mesmo no caso das mulheres que voltam ao mercado de trabalho, estas não conseguem se envolver em nenhuma outra atividade (seja educacional ou representativa) porque precisam fazer a chamada ‘segunda jornada de trabalho’ em casa. E no caso daquela pequena porcentagem de mulheres, que à duras penas conseguem ocupar cargos de liderança ou espaços de poder, devemos nos questionar: e quem cuida de suas casas? E de suas crianças ou parentes idosos? Muito provavelmente outras mulheres (seja no domicílio ou em escolas/asilos), que são pagas para realizar esse tão desvalorizado trabalho doméstico.

Nos países desenvolvidos, encontramos milhares de imigrantes trabalhadoras domésticas, que deixam seus países, suas famílias e seus filhos por anos, para cuidar dos filhos de mulheres mais privilegiadas. É claro que o mesmo acontece no Brasil, porém aqui não há ainda a necessidade de ‘importar’ trabalho doméstico devido ao seu baixo custo.


Mulheres fazem 2.6 mais trab doméstico/cuidado que os homens
Portanto, a grande maioria das mulheres acaba se limitando à esfera privada da vida, e seu trabalho doméstico não remunerado libera o homem para participar da esfera pública.  Enquanto as mulheres não tiverem significativa participação na esfera pública, suas vozes não serão ouvidas, e consequentemente seus desejos e necessidades não serão atendidos. Diga-se de passagem, as leis. As leis são feitas majoritariamente por homens, em sua maioria homens brancos e privilegiados. Os homens não engravidam, não amamentam, poucos realizam tarefas domésticas, pouquíssimos são pais em tempo integral. Portanto esses homens, que tomam importantes decisões que nos afetam, possuem uma compreensão muito limitada do universo feminino e materno. E por isso é tão crucial que mais mulheres se envolvam na política (e mais homens no trabalho doméstico), para que nós sejamos verdadeiramente representadas, para que nossa voz seja ouvida, e para que novas leis sejam criadas, de forma a dar o suporte que as mulheres precisam para ter maior participação na vida pública.

“... Cuidar de outras pessoas e ser cuidado e amado por elas é uma parte integral da nossa vida cotidiana... o cuidado é essencial para a sobrevivência básica, mas de forma geral, é um elemento central no bem-estar mental e emocional da maioria das pessoas. (Baker et al, 2004: 220)*.



Países avaliaram trabalho de cuidado NÃO PAGO entre 15 e 39% do GDP
É muito importante que nós mulheres compreendamos o significado do cuidado, do trabalho doméstico, porque de uma forma ou de outra ele tem que ser feito, a casa tem que ser limpa ou ao menos organizada para que se consiga habitar nela, a roupa deve ser lavada para ser vestida, a comida deve ser feita para saciar a fome, as crianças tem que ser vestidas, alimentadas, educadas, os idosos e deficientes idem, tem muito trabalho ‘gratuito’ a ser feito e esse trabalho não está sendo dividido igualmente. Portanto entramos na principal questão que deve ser resolvida para conseguirmos alcançar a tão sonhada Igualdade de Gênero: a justa divisão do trabalho doméstico.

Como é possível promover uma divisão mais justa do trabalho doméstico?

Primeiramente através da educação. Devemos educar homens, mulheres, meninas e meninos, desde crianças, a entender que esse trabalho é responsabilidade de todos, e não só das mulheres. O cuidado e as tarefas domésticas deveriam ser ensinados na escola, é claro que os pais devem ensinar em casa, mas devido à relevância dessa questão, o tema deve também ser discutido e trabalhado de forma incisiva nas escolas, desde o jardim de infância. Imagine as crianças fazendo uma aula prática de como cuidar do irmãozinho que passou por uma cirurgia? De como lavar a louça, dobrar as roupas, pendurar no varal? De como pentear o cabelo e dar comida para a vovó acamada? De como fazer uma massagem no papai que está com dor na perna? De como cuidar da mamãe cansada? Não seria lindo? Todas essas são tarefas simples de serem aprendidas, mas raramente são ensinadas, porque nos parece existir uma presunção de que serão aprendidas naturalmente - pelas meninas, é claro. (Nunca esqueço minha surpresa quando vi meu marido pesquisando no youtube tutoriais de ‘como lavar a louça’!)

Em segundo lugar, deveríamos ter políticas públicas que favoreçam a vida familiar e que sejam flexíveis, que permitam às mulheres e aos homens horários flexíveis para poder cuidar dos filhos e dividir o trabalho doméstico. Tais políticas poderiam ser: carga horária flexível, possibilidade de diminuir a carga horária de trabalho quando necessário, tempo de licença maternidade/paternidade mais longo, possibilidade de licença parental, férias flexíveis, etc. Dentre essas políticas também deveria haver mais iniciativas para dar suporte às mães que desejam voltar ao mercado de trabalho, como creches, jardins de infância ou escolinhas com opções flexíveis de dias e horários para deixar as crianças), auxílio babá, auxílio creche, etc. Todas essas iniciativas já existem em muitos países mais justos e igualitários.

Em terceiro, como dito acima, é urgente e essencial que as mulheres participem dos espaços de poder, principalmente da esfera política. Por isso, deve haver projetos e campanhas para que as meninas, desde muito cedo, entendam a importância de serem representantes honestas, de serem porta-voz de sua comunidade, de representar os interesses de outras mulheres e de buscar a igualdade de gênero em seu bairro e em sua cidade.

Trabalho Doméstico e de Cuidado Não remunerado
Metas de desenvolvimento sustentável ONU
Mulheres e homens ao redor do mundo estão sentindo que basta, basta de desigualdade, de submissão, de violência, de terror contra as mulheres. Pesquisando sobre o dia Internacional da mulher me deparei com o tema das Nações Unidas para esse ano: “Seja Ousada para a Mudança”. Acredito que esse tema traduz o que eu e muitas mulheres, no Brasil e no mundo, estamos sentindo. Estamos prontas para a mudança, sedentas de mudança, confiantes na mudança. Mas é preciso ir além, é preciso ousar. Precisamos ousar exigir uma justa divisão do trabalho doméstico. Precisamos ousar exigir direitos iguais.


Fontes:



1.     https://www.youtube.com/watch?v=qnHh_kKApvI
2.     2*Baker, J., Lynch, K., Cantillon, S. and Walsh, J., (2004), Equality: From Theory to Action, London: Palgrave.
3.     Lynch, Kathleen et al (2009), Affective Equality, Love, Care and Injustice









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