Histórias de mamãe

10 de set. de 2014

Minha mãe sempre disse que quer escrever um livro. Espero muito que ela consiga alcançar esse objetivo. Pra incentivá-la, eu sugeri que ela escrevesse memórias de sua infância, que pelo que ela me diz foi uma infância muito difícil, de muita luta e sofrimento, mas ao mesmo tempo ela dizia que tinha recordações muito especiais de uma vida simples no campo. Aí estão alguns capítulos da história da vida de mamãe, essa pessoa tão única e especial! Fiquei muito emocionada ao ler.



Primeira Lembrança

Havíamos mudado há pouco tempo para aquele novo sítio. Em toda pedra grande que eu encontrava eu escrevia o número 7. Era a minha idade! Essa é a lembrança mais antiga que guardo minha memória. Meu pai havia vendido uma linda e grande fazenda para pagar as dívidas e com o dinheiro que sobrara ele comprou esse sítio onde entäo morávamos. Era uma casa plantada no meio da terra. Não havia pomar, não havia nada. Tudo havia de ser construído. O pomar começou a ser plantado, uma pequena lavoura de café, também foi plantada bem próxima da nossa casa. Tínhamos um poço de onde uma ariete mandava a água pra nossa casa. Próximo deste havia um outro para as vacas. Nós o chamávamos de aguada. Isso significa lugar onde o gado bebe a água. Mamãe plantara uma horta de verdura e criva galinha. Daí vinha nosso alimento. Durante a semana, verdura, ovos, arroz e feijão e aos domingos comíamos frango. No café da manhã sempre o leite vindo direto do curral. Algumas vezes tínhamos biscoito que mamãe fazia. Lembro-me de sentir fome no período da tarde e saíamos a procura de alguma coisa pra comer. Sinto até hoje o sabor de um pepino que comemos achado na lavoura de café. Nunca mais comi algo tão saboroso! Me faz lembrar uma história que mamãe contava de homem muito faminto que comera mingau de pedra e achara delicioso! Ela sempre completava: a melhor mistura é a fome! E era mesmo! Aquele pepino era melhor do que qualquer fruta naquela hora! E assim vivíamos naquele sítio. O sete era o meu número! Eu o escrevia com um pedaço de tijolo em todas as pedras que encontrava!


Lembranças de minha Infância - parte 2

Assim, vivíamos, eu, papai, mamãe, uma irmã mais velha que eu, que sempre estava a ajudar na lida da casa, um irmão mais velho e dois mais novos que eu. E foi com esses três irmãos que vivi todas as aventuras de minha infância. As vezes pescávamos lanbari no poço usando peneiras, as vezes matávamos passarinho com estilingues, e sempre era uma festa fritá-los ou cozinhá-los para comermos. Lembro-me de uma vez que enchemos a peneira de lambaris, esse dia foi uma festa! Papai possuia dois cavalos, e as vezes saíamos para o pasto a procura deles. Näo levávamos nem sela nem freio. Segurámos na clina, e íamos dando tapinhas na face do cavalo quando queríamos virà-lo. O sitio media 21 alqueires de terra e uma estrada o cortava ao meio. Sempre íamos pouco mais dessa estrada, pois ouvíamos os lobos uivando mais em cima e sentíamos medo de ir além. Mas um dia criamos coragem e aventuramos pasto acima! E esse dia atingimos o final das terras. Sinto até hoje o gosto daquela conquista! Eu olhava a cerca e näo podia acreditar! É como se hoje após visitar todos os países do mundo eu estivesse chegando no ùltimo deles! Aquele sítio era o nosso mundo e nós acabávamos de conhecê-lo todo! Foi maravilhoso! Mas nem sempre era só alegria. Algumas vezes caíamos do cavalo e quebrávamos o braço. E isso se tornou täo comum prá nós que quando um caía, o outro já verificava correndo se esse havia quebrado o braço. Quebrou, quebrou? Näo? Entäo voltava-o pro cavalo e continuávamos o passeio! Mas quando esse dizia, acho que sim, e sempre essa resposta vinha acompanhada de choro, voltávamos entäo cabisbaixos e temerosos. Mas mamäe mesmo enfaixava com clara de ovos e panos e ficavamos bons. Mas das três vezes que isso aconteceu comigo só uma tive que procurar o médico. Então meu pai me levou prá Ribeiräo Preto a 150 km de nosso sítio. Ah, mas que beleza! Eu nunca havia ido lá antes. E ficamos num hotel! Até hoje quando quero arrumar uma cama mais bonita eu faço como eu vi naquele dia a cama do hotel! O lençol estendido, o travesseiro próximo a cabeceira e o cobertor em forma de flor no meio da cama! Oh, como foi bom quebrar o braço! Eu nunca dormiria num hotel se isso não tivesse acontecido! E a noite entäo, melhor ainda! Fomos ao cinema! Primeira vez naqueles oito ou nove anos de vida. Assistimos o filme do Mazaropi: o vendedor de lingūiça. Como eu ri, como me diverti! Até hoje lembro o filme em detalhes! Ah, se fosse prá ser sempre assim, eu queria quebrar o braço toda semana! No outro dia fomos ao hospital. De lá eu tenho pouca lembrança pois o dia anterior usou todo espaço da minha memória! E entäo estávamos de volta, e a vida continuava como antes...


O Amor de Minha Infância

Nós éramos oito irmäos, mas os três mais velhos foram morar em Ibiraci, uma cidadezinha pequena a 10 km do sitio. Papai era professor e possuia uma escola que funcionava na sala da nossa casa. Todos nós estudamos com ele até o final da quarta série primária. Os meninos da redondeza vinham diariamente para as aulas. Todos na mesma classe, da primeira até a quarta série. Sentávamos em volta de uma mesa. Uma pequena lousa na parede, papai explicava ou passava a matéria prá uns enquanto os outros faziam exercícios. Todos aprendiam! No final da quarta série tínhamos que ir ao Grupo escolar de Ibiraci para fazer os exames e adquirir o DIPLOMA! E eu o fiz conseguindo o primeiro lugar! Mas muitos alunos contentavam apenas em aprender a ler e escrever. Muitos näo iam fazer os exames e outros nem terminavam a quarta série. Os pais queriam apenas que eles soubessem ler, escrever e fazer contas. Quando papai näo podia dar as aulas, mamäe o fazia no seu lugar e todos gostavam pois ela era menos brava! Eu sempre gostei muito de estudar, sempre estudava além do exigido. As notas eram dadas de 0 a 10. E eu sempre tirava 10. Mas meu pai era muito rígido ao avaliar, e as vezes por falta de um acento, mesmo que a prova näo fosse de português ele descontava um décimo. E eu tirava 9,9 e entäo chorava muito, näo me conformava! E até hoje vejo isso na minha vida! Näo quero nada 99 por cento. Tudo tem que ser 100 por cento! É claro, naquilo que é importante prá mim. Aquilo que näo é de muita importância, também näo me importo com a avaliaçäo. E foi aí entre essas crianças que tive o único amor da minha infancia. Ele era lindo! Mais ou menos da mesma idade, e todos sabiam do nosso amor. Seu apelido na escola era "Bolacha" e por isso me apelidaram "Bolachinha". Quando ele faltava às aulas, eu ficava quieta, apagada, e entäo eles caçoavam: " a Bolachinha tá triste porque o Bolacha näo veio!" e era verdade, naquele dia näo haveria aqueles olhares cruzados na sala! E o recreio entâo? Näo teria o mesmo sabor! Näo seria o mesmo! E o melhor dessa escola era o recreio! Ah! Como aproveitávamos! Essa meia hora era maravilhosa! E era aí que acomtecia o nosso "relacionamento"! O mais importante deles era numa brincadeira de roda: dávamos as mäos em círculo e um corria em volta com . uma pedrinha na mäo fazendo de conta que colocava atrás, e este deveria ver a pedrinha quando ela fosse colocada, deveria pegá-la, e correr em volta como o outro o fez. Se quando a pedrinha foi colocada e a criança näo viu e o que a colocou chegasse após completar a volta, ele iria prá dentro da roda e seria "o bobo". Sempre o que colocava a pedrinha tomava o lugar deste. E entäo era aí que ficávamos de mäos dadas! Pois ele só colocava a pedrinha em quem estivesse do meu lado. E eu também sempre fazia a mesma coisa! E era muito gostoso! Aquele momento alí era quase eterno! Apertávamos as mãos um do outro e eu sentia que éramos uma só alma! Eu já sabia o que era amar! E eu amava aquele menino! Também sentia que era amada! Mas um dia eu tive que aprender que aqui tudo é eterno enquanto dura! E aquele dia que seu pai chegara prá pedir sua tranferência, pois eles mudariam para outro estado, o Paraná, e eu já conhecia todo o mapa e sabia que era muito longe, e foi aí que meu mundo desabou! Eu nunca mais o veria! E eu fiquei muito triste! E deve ter sido nesta época que decidi ser médica! Acho que quando näo vemos mais motivo nas nossas vidas começamos a querer cuidar das dos outros! E assim continuei a estudar muito e pouco a pouco a ferida foi cicatrizando... Mas meu coraçäo näo abriu mais na infância, isso só foi acontecer bem mais tarde, na minha adolecência! E eu contarei ainda quando foi que voltei a vê-lo! Mas näo hoje!...


Algumas Lembranças Tristes

Lembro-me de ter apanhado muito. De todas vezes que papai me bateu eu näo recordo os motivos, mas me lembro que ele perguntava se eu iria fazer aquilo outra vez e eu respondia que sim. Ele me batia de correia, com muita força, me deixando toda marcada, mamãe ficava louca, gritando: bobona! Diz que näo! Mas eu só dizia que não quando já näo aguentava mais. Mas de todas vezes que me lembro de ter apanhado da mamäe eu me lembro os motivos. Uma vez ela me bateu com a corda da máquina de costura porque eu havia brigado com o Mario. Desta vez fiquei com as pernas todas marcadas por muitos dias. Outra vez porque ela me obrigou buscar água na mina, e eu sempre dizia a ela: me pede que eu faço, mas eu näo gosto que me obriga. E desta vez após termos acabado de beber a água eu disse que trouxera a água da aguada e näo da mina. Mas era mentira, eu só queria provar prá ela que näo era bom me obrigar fazer as coisas. E apanhei muito mas näo disse a verdade. Outra vez apanhei porque ela me fez torrar café, eu näo queria, e após terminar eu fui ao tanque e me molhei toda com água fria. E quando torrávamos café deveríamos ficar várias horas sem mesmo molhar as mäos! E assim eu apanhava sempre, acho que até me acostumei. Mas uma vez me marcou mais acho que foi porque aconteceu após uma grande alegria. Me lembro que papai havia furado uma cisterna a uns 200 metros acima da nossa casa. Era veräo, chovia muito e também fazia muito calor. A cisterna estava derramando e havia um extenso buraco perto de casa. Eu, meus irmäos, e mais dois meninos vizinhos tivemos a idéia de trazermos a água que derramava até esse buraco. Assim fizemos um pequeno rego que conduzia a água até o buraco. Imaginem como sentíamos após várias horas de trabalho ver aquela piscina enchendo de água! A aventura era imensa! Aquele buraco de terra vermelha fazia a água limpa virar quase um barro. Mas prá nós era uma linda piscina, acho que na época näo conhecíamos piscina ainda mas sabíamos bem o que era nadar pois já o havíamos feito em córregos e poços. Mas isso era raro, e agora tínhamos a idéia de que poderíamos nadar todo dia. Estávamos radiantes diante da nossa façanha! Bem, pensei, agora é só arrumar a roupa de nadar. Os meninos usavam calça curta e assim eles nadavam. Eu devia ter nessa época uns 9 a 10 anos. O biquinho do meu peito havia começado a crescer. Era assim como se estivesse inchado. E eu já tinha vergonha de mostrá-los. Assim peguei uma tira e amarrei no peito. De calcinha e com essa tira me senti bem vestida! E pulamos, brincamos e sentimos realizados diante desta façanha! Foram horas maravilhosas! Ainda bem que näo prevemos o futuro porque se eu previsse näo teria curtido tanto! Assim que mamäe viu aquilo ficou furiosa, näo com os meninos mas comigo porque como dizia ela eu estava pelada. E aquele dia eu apanhei muito e ouvia ela dizendo: isso é prá você aprender a näo ficar pelada perto de homem! Acho que carreguei essa frase na minha mente por muitos e muitos anos! Näo que eu tivesse aprendido, muito pelo contrário, até hoje acostumo dizer que minha roupa preferida é o biquine, mas um sentimento de näo ser boa como sou, um baixo sentimento de auto-estima e tendo sido acompanhado por outros acontecimentos na minha infância isso me levou a ter que me trabalhar muito no meu interior prá que eu pudesse me ver livre ou quase desse sentimento de culpa, de carência....


O que significa para uma criança apanhar

O mundo de uma criança é muito pequeno. Seus desejos säo poucos e ela vive sempre no presente! Seu corpo é o que é de mais precioso prá ela. Quando ela apanha ela se sente violentada. E ela näo pode revidar contra os pais, näo pode xingar, näo pode expressar o que sente na hora, só lhe resta chorar. E muitas vezes nem isso lhe é permitido! Muitas vezes ouvi: calhe a boca! Feche a boca! Pare de chorar! Oh! Que tamanha volëncia! A criança tem que sentí-la e ainda reprimir! Mas ainda bem que essa maneira de educar já quase näo existe mais! Meus pais aprenderam essa maneira de educar com os meus avós, e eu também aprendi com eles e achava certo e natural educar assim. E só depois de entender o peso dessa educaçäo na minha vida é que parei de educar assim. Hoje se eu criasse uma criança näo lhe daria um tapa sequer! Ouvi dizer que a criança que apanha geralmente faz xixi na cama. E eu fiz até grande e sofri muito com isso! Tinha muita vergonha disso. E sofria mais quando minhas irmäs diziam que eu iria casar e mijar no meu marido! Ah, se as pessoas soubessem o peso de certas palavras para uma crianca elas pensariam mais antes de falar! Eu só fui entender isso quando ao me conhecer melhor me deparei com uma pessoa de baixa auto-estima, carência emocional, cheia de complexo de inferioridafe, necessitada de auto-afirmaçäo! E só eu sei quanto sofri, quanto tive que me trabalhar para me livrar de todos esses sentimentos. E me deparo ainda com circunstâncias em que esses sentimentos ainda se fazem presentes! E eu sofro muito ao pensar que näo me livrei totalmente deles! Näo falo com rancor de meus pais pois sei que a intençäo deles era me educar e já pedi perdäo a meus filhos por tê-lo feito. E mais uma vez peço: perdöem-me pela minha ignorância naquela época! Meus cinco filhos, eu amo muito vocês!

Nenhum comentário:

Postar um comentário